se eu pudesse abraçava e protegia todas. não deixava ninguém arrancar uma folha sequer sem pedir licença. se eu pudesse impedia a prefeitura de entregar a poda das árvores nas mãos da empresa que privatizou a rede de energia elétrica e se ocupa em 'proteger' os fios dos seus galhos já massacrados por outras podas mal feitas. a tal poda de mutilação, como bem chamou lutzenberger.
estamos vivendo em cidades com cada vez menos árvores. logo porto alegre que já se orgulhou de ser a capital mais arborizada do país, entregou suas árvores nas mãos de quem não enxerga nada além de um pedaço de pau, um obstáculo a ser removido pra dar espaço a mais uma estrutura provisória.
uma árvore não é só um pedaço de madeira, uma árvore carrega história. teve quem plantou, quem regou, quem cuidou, quem amou, teve muita vida que dela brotou e que nela se abrigou. eu fico triste cada vez que noto uma árvore a menos, ou uma árvore antes frondosa reduzida pela metade, toda torta.
fico triste e me revolto por não poder fazer nada. e porque me parece que poucas pessoas notam o sumiço delas. notando ou não, todas vão sentir na pele a sua falta. a falta de sombra, ruído em excesso, ar cada vez mais poluído, calor demais...e por aí vai.
sabe, eu não vou sobreviver em um mundo sem árvores, e acho que vocês também não.
então porque não se revoltam comigo? por mais espaços verdes na cidade, por mais lugares de refúgio, de silêncio, de ar respirável. contra a poda de mutilação. por outra lógica de desenvolvimento urbano.
já entendemos que as indústrias da construção civil e imobiliária ditam os rumos do capital financeiro por aqui, mas também já sabemos que existem outras formas de fazer a economia girar. dá pra re-começar, sempre dá.
sempre há outras formas de fazer o que sempre fizemos.
"em princípio, árvore alguma necessita de poda. se necessitasse, todos os bosques se acabariam sozinhos. quanto mais livremente uma árvore consegue se desenvolver, mais bela e sã ela será, e tanto mais tempo ela viverá.
quando houver realmente necessidade de retirar galhos e troncos importantes de uma árvore adulta, para defender um fio, uma fachada ou um telhado, o trabalho deverá ser feito dentro de uma técnica especial, chamada 'dendrocirurgia'. os galhos e troncos serão retirados, então, de tal maneira que possa haver cicatrização no lugar do corte e condições de recuperação para a árvore. para executar este tipo de trabalho é necessário que se compreenda como cresce uma árvore. isto é muito fácil, mas exige um pouco de observação - algo muito raro no mundo de hoje (...).
o esquema de crescimento de uma árvore é fundamentalmente diferente daquele de um animal superior. enquanto um mamífero, por exemplo, cresce interna e externamente como um todo, todas as partes ao mesmo tempo, com manutenção de estrutura, forma e proporção, uma árvore cresce de maneira semelhante a uma colônia de corais: ela cresce na superfície de suas estruturas (...).
quando cortamos um tronco, não pode haver recuperação na parte da madeira exposta, nem no interior da casca. é somente na fina linha do câmbio que haverá reconstituição de tecidos novos. o erro mais comum, quando se retiram galhos de uma árvore, está em deixar um toco mais ou menos longo. este toco quase sempre acaba morrendo até seu ponto de origem ou, se houver brotação, esta raras vezes se fará exatamente em sua extremidade. estes tocos impedem a formação de tecido cicatrizante, da mesma maneira que, no caso de uma amputação de um membro animal, a não retirada da ponta do osso impediria a cicatrização e o indivíduo acabaria morrendo de infecção. para que possa haver cicatrização, para que o lenho possa recobrir-se novamente de casca, é necessário que todo galho retirado seja cortado na origem, sem deixar toco. o corte deve ser limpo e liso, evitando-se rasgar lascas." - J. Lutzenberger, Manual de Ecologia do Jardim ao Poder, Vol. 1, Porto Alegre, 2006.

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